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          Ana Z. 
          Aonde Vai Voc?

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Impresso Braille, em 2 partes,
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, da 12 edio,
So Paulo -- 2006
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           Segunda Parte

           Ministrio da Educao
           Instituto Benjamin Constant
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          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<p>
          Editor
          Fernando Paixo
          Assessora editorial
          Carmen Lucia Campos
          Preparao de originais
          Ruth Kluska Rosa

          ISBN 85 0804335 x

          Todos os direitos reservados
          pela Editora tica.
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          -- 2006 --
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                                I
Sumrio

Segunda Parte

 De vento em popa :::::::::::: 83 
 De vento em vento ::::::::::: 91
 A cidade sem igual :::::::::: 95 
 O que os olhos no 
  vem :::::::::::::::::::::: 110
 Um salto rumo s 
  estrelas :::::::::::::::::: 122 
 A Ao imprevista ::::::::: 125
 Era uma vez o oeste :::::::: 131 
 De volta ao comeo ::::::::: 135 
 O fundo recomeo ::::::::::: 141 
 enFIM ::::::::::::::::::::: 146 
 Entrevista com Marina 
  Colasanti :::::::::::::::: 148
 Obras da autora :::::::::::: 157
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<46>
<Tana z.>
<T+83>
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De vento em popa
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  Quanto andaram at chegar aos rochedos Ana no saberia dizer. Nem saberia dizer se so rochedos, propriamente, ou pedras, ou nem mesmo pedras. Parecem mais blocos de areia calcificada, claros e polidos como se tantos ventos tivessem gasto suas arestas, enormes seixos de rio depositados ali por guas que h muito se foram. Pois   sombra dessas quase pedras, descobre Ana ao se aproximar, que se protegem as casas de uma aldeia.
  Casas to brancas e polidas quanto o resto, que com o resto s vezes se confundem. Casas que poderiam ser de qualquer outra aldeia, se diante de cada porta um homem no construsse um barco e uma mulher no tecesse redes.
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  "Para que barcos, no deserto?", gostaria Ana de perguntar e no pergunta, porque seu camelo j se pe de joelhos e o cameleiro desce gil da sela, esquecendo-se de estender-lhe a mo.
  S eles apeiam. O resto da caravana continua parado, lanando sobre o cho sua sombra comprida e atada como uma corda. Ces ladram nas patas dos camelos. Das portas, os homens olham, parando por um instante seu trabalho, as mulheres levantam a cabea, enquanto as mos continuam conduzindo a naveta em gestos h muito decorados. Atrs das suas saias escondem-se crianas pequenas.
  Os passos do homem azul parecem mais largos na claridade. Ele caminha para uma das casas, esvoaando os panos da sua roupa, grande ave estranha nesse ninho. E Ana, que trota logo atrs, no saberia dizer o que  mais escuro, se ele, ou sua sombra. Chega-se a um dos homens. Este pousa o faco com que trabalha.
  O barco, agora Ana pode v-lo de perto, no  grande. Tem um feitio diferente de todos os que ela viu antes, com arestas salientes dos lados, como breves asas e, na proa, lanando-se para fora, um espigo serrilhado feito bico de peixe-espada. A estrutura, que aparece no lado de dentro, deve ser de ossos, ou de alguma madeira muito dura -- "mas onde conseguiriam madeira aqui?", matuta Ana, olhando aquela aridez onde apenas alguns magros cips se enroscam feito serpentes na base das grandes pedras. Revestida de couros emendados encerados polidos engraxados, lembra um tambor, ou o ventre grvido de certos animais. Talvez por isso, como se fosse um gesto inevitvel diante do visitante, o homem azul bate no lado do barco com a mo espalmada, arrancando um som seco e cavo.
  O construtor de barco sorri, aprovando com a cabea. Sorriem e aprovam todos os outros construtores, batendo com as mos nos costados de seus barcos. E acompanhada por aquele estranho bater, comea entre eles e o homem azul uma conversa da qual, mais uma vez, Ana no compreende palavra.
  Homem azul -- O som  bom.
  Construtor de barco -- Tem que ser. Um barco  como um instrumento. Ou como um copo. S presta se o som for direito.
  Homem azul -- Com um som desses, enfrenta qualquer gua.
  Construtor de barco -- H muita gua no mundo. E deve haver gua mais forte que os meus barcos. Mas eu nunca soube de nenhuma que pudesse com eles.
  Uma mulher -- E olhe que nossos barcos viajam no mundo todo.
  Ana gira a cabea, de um para o outro, como se olhando os rostos pudesse penetrar no que dizem. Mas conversa que a gente no entende  bola que quica longe, e logo some.
  Homem azul -- Quando eu era menino, cruzei um rio no barco que meu pai comprou dos teus pais. Era um rio de muita correnteza, mas meus ps chegaram secos do outro lado.
  Construtor de barco -- Meu pai era um grande construtor de barcos.
  Homem azul -- E meu pai sempre me contava da vez em que foi pescar com meu av, no barco que ele comprou dos teus avs. O lago era verde e traioeiro, e meu pai nunca esqueceu daquele barco.
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  Construtor de barco -- Meu av era um grande construtor de barcos.
  Homem azul -- E meu av dizia que antes dele, e antes do pai dele, os barcos desta aldeia j eram famosos em toda a Terra do Sol Escaldante.
  Construtor de barco -- J eram, h muito tempo.
  Ana gostaria de dar uma volta, explorar um pouco a aldeia, mas no quer se afastar, no quer perder nem uma fala, como se pudesse guard-las inteiras para decifrar mais tarde.
  Homem azul -- Sempre me perguntei como  que vocs sabem fazer barcos to bons, nesse lugar to sem gua.
  Construtor de barco -- Eu aprendi com meu pai.
  Outro construtor -- Que aprendeu com o pai dele.
  A mesma mulher -- E para que gua? Ns no fabricamos rios, nem mares. Para fazer barcos, basta saber fazer barcos.
  O mesmo construtor -- E isso fazemos melhor do que ningum.
  Falou-se em gua. Mas ela no  sequer oferecida, apesar dos lbios secos. gua  preciosa demais nessa aldeia, para se oferecer a visitantes. Lavam-se as mos em leite de cabra -- daquelas mesmas cabras cujo couro ser um dia transformado em barcos -- a fim de que estejam limpas na hora de fechar a venda. A conversa no demora.  fcil chegar a um acordo quando todos sabem o valor do que est sendo negociado.
  E afinal, discutido e pago o preo, o homem azul faz um chamado, um cameleiro se aproxima, o barco  iado, atado junto  carga do camelo. Com ele, sobe uma rede.
  Em breve, a caravana ondula, a marcha recomea. Embora sabendo que jamais encontraria seus peixes por ali, Ana teria gostado de ficar um pouco mais, pelo menos o tempo de comear a entender alguma coisa daquela gente. E no s ela. Eu tambm, confesso, fiquei meio frustrada. Sempre vou de carona nas perguntas de Ana, para saber das coisas. E dessa vez, com ela calada, acabei ficando eu tambm no escuro. Que gente  aquela, e de onde vieram seus antepassados fazedores de barcos, nunca saberei. A viso deles, porm, vai comigo, como a rede, cheia de vazios. E me consolo pensando que um dia ainda apanho alguma coisa com ela.
<51>
  Mas a parada naquela aldeia, s agora Ana se d conta, no foi por acaso. Nem foi por acaso que chegaram at l. No deserto, sem pontos de referncia, todos os caminhos parecem retos. Quem poderia dizer, ento, dos desvios traados pelo caravaneiro para alcanar o lugar que h tantos anos estava em sua rota e comprar o barco dos seus desejos?
  Tanta devoo intimida Ana, que s passado algum tempo ousa fazer sua pergunta.
  -- Pra que voc quer um barco, no deserto?
  -- Porque se a viagem  longa, como saber quando vou precisar de um barco? E o deserto... o deserto  muito longo -- o homem se cala por alguns minutos. Depois completa: -- Mas nem ele dura para sempre -- outra pausa. Mais baixo: -- E um barco bem-feito  um tesouro em qualquer lugar.
<51>
  -- Mas pra que a rede, se aqui no se pesca? -- Ana insiste, com uma ponta de angstia no corao. No pelo desejo de tambm possuir um barco. Mas pela percepo de que algo, maior que o barco, lhe escapou.
  -- A rede  um presente -- responde o homem azul, quase irritado porque Ana parece no entender o valor da sua compra. E irnico, voltando levemente a cabea para ela: -- Pra que um barco, sem rede?

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De vento em vento
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  E ao longo do avanar da caravana, que prossegue aparentemente igual mas sempre diferente, h um momento em que uma tempestade de areia tem incio.
  Impossvel marcar com preciso esse momento. Uma tempestade de areia pode comear com uma sensao entre os dentes, de ranger, ou de serrilha, os de cima subitamente estranhos aos de baixo, sem encontrar seu justo encaixe. Ou com um franzir quase dolorido das sobrancelhas, proteo instintiva dos olhos. Pode comear com um leve estremecimento no dorso das dunas, um arrepio, em que o contorno perde a nitidez, se encrespa, se desfaz. Mas a tempestade, a tempestade mesmo talvez s possa ser declarada quando a areia no ar j  tanta, que encobre o sol.
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  Faz-se ento um escuro quase claro. Escuro, porque os raios do sol no conseguem chegar at as pessoas. Claro, porque, tentando faz-lo, eles se intrometem, se enfiam por entre os gros de areia que voltejam, e giram com eles enrolando cada gro numa casca de sol, como se uma poro de minsculos sis rodassem em tantos rodamoinhos, fazendo sombra uns aos outros, com sua prpria luz.
  Pelo menos, so rodamoinhos o que Ana acredita ver, olhando aquela escura luz dourada, pela fresta do turbante com que o homem azul lhe protegeu cabea e rosto.
  "Que hora ser?", pergunta-se vrias vezes ao longo do primeiro dia de tempestade, um pouco por aflio, um pouco por brincadeira, sabendo pela fome que a manh j passou ou que a tarde est adiantada, enquanto a luz, sempre igual, nada lhe responde.
  No segundo dia, porm, foi-se o desejo de brincadeira. Ana no est mais interessada nas horas, "O que ser pior, uma tempestade de areia ou uma tempestade de neve?", indaga-se. Porm, nunca tendo estado em uma tempestade de neve,  obrigada a deixar a questo em aberro.
   no terceiro dia, numa hora que pode ser qualquer uma, que Ana, olhando para o cu  procura de uma trgua, v o dirigvel.
  Como pode um dirigvel flutuar to sereno, enorme baleia prateada, em meio quele galope de vento, ela no sabe. E muito menos sabe como pode ela. Ana, ver alguma coisa to claramente, em meio quela nvoa amarela em que tudo se confunde.
  No entanto, l est, avanando lento e majestoso, como se estivesse parado. E nas janelinhas -- Ana poderia jurar se algum lhe exigisse juramento -- um homem olha para baixo com uma espcie de luneta, e uma mulher, uma mulher vestida de cinza plido, com um chapelo e uma pele de raposa ao redor dos ombros, acena com a mo enluvada de branco.
  Que faz um dirigvel sobrevoando uma tempestade de areia? Isso sim, Ana gostaria de saber. Pode ser parte do rali Paris-Dakar -- em que ms  mesmo que ele acontece? Ou pode ser uma promoo publicitria -- mas promovendo o qu? Ou algum dando a volta ao mundo em 79 dias, s para no quebrar o recorde daqueles famosos 80.
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  Em vo Ana chama seu companheiro de viagem. Com o barulho do vento, nada se ouve. E quando, depois de muito cutuc-lo, ele finalmente se volta, a tempestade recrudesceu, a areia se fez mais densa. O dirigvel j no se v. No est, ou nunca esteve, acima de suas cabeas.
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  Ser preciso mais um dia antes que o vento se canse e, como um velho cachorro, deite no cho e durma.
  Mas quando afinal se aquieta, o ar repentinamente limpo no entrega ao olhar de Ana a lisa imensido do deserto. Diante dela, escura e inesperada, recortando seu desenho sobre o fundo claro, est uma cidade em runas. Na qual a caravana vai adentrando.

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A cidade sem igual
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  -- Por mil camelos! -- exclama Ana, tentando, sem grande sucesso, falar como uma caravaneira. -- Olha s o que a tempestade fez!
  -- Fez o qu? -- pergunta o homem azul olhando ao redor.
  -- Como, o qu? derrubou tudo, poxa!
  Ri o homem. -- Derrubou nada. J estava assim h muito tempo.
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  E toca o camelo com sua varinha, naquele comando que Ana agora sabe at prever.
  Neste ponto, vamos simplificar; cortamos a descrio toda que vocs j conhecem, de camelo parando, cameleiro apeando, Ana escorregando pela sela como se fosse um tobog. E retomamos os dois, mais alguns cameleiros que tambm apearam, uma hora depois, l adiante, no meio da cidade destruda.
  Ana est trocando figurinhas com outras crianas. Figurinha  como eu chamo, para a gente se entender, mas eles certamente do outro nome, porque tambm no so figurinhas como a gente usa. So umas rodelas chatas, de barro seco, menores que um pires e maiores que uma chapinha, com uns desenhos riscados e pintados de barro vermelho. Olhando por cima do ombro de Ana, d para a gente ver: tem uma com um Sol, outra com um camelo, bonitas a da Lua e a de um rosto soprando, que deve ser o vento. Mas tem uma que os meninos no querem entregar de jeito nenhum, certamente a mais preciosa.  a de um cavalo negro.
  Ana, que no tem figurinha nenhuma, troca por outras coisas, objetos pequenos que foi juntando ao longo da viagem, um anel de cobre com uma pedrinha verde que ganhou do sulto, o boto de uma das suas babuchas que achou um dia depois que ele foi embora, trs sementes de uma rom do osis, uma pena de pssaro. So objetos de muita tentao para as crianas, que nunca viram coisas semelhantes. Mas no suficientemente tentadores para serem trocados pela figurinha mais rara.
  Ana e as crianas esto acocoradas numa escadaria, ou melhor, no que sobra de uma escadaria, que ainda sobe com alguma elegncia entre os amontoados de tijolos e restos de paredes, para acabar de repente, a cu aberto. Porm no esto sozinhas. Ali mesmo, no meio daquela que talvez tenha sido uma sala, ou um templo, est erguida uma tenda. E diante da tenda, deitados sobre tapetes e almofades, caravaneiros e homens do lugar fumam em longos cachimbos cor de rubi.
  No  a nica tenda da cidade. Pelo contrrio. Em cada runa, em cada espao deixado livre pelos minaretes meio cados, pelas cpulas carcomidas, pelos muros que vieram abaixo, a ondulao angulosa das tendas desenhou uma outra arquitetura. E uma terceira se desenha ainda mais area, porque no alto das tendas, entre as antenas de teve, ondulam longas flmulas coloridas, estandartes, bandeiras. galhardetes estampados com os desenhos do Sol, do camelo, da Lua, e do vento. Nenhum, porm, traz o cavalo negro.
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  No alto da escada, brincam as crianas.
  -- Vocs moram aqui h muito tempo? -- indaga Ana, voltando-se para o menino da figurinha da Lua.
  -- Desde a vida toda.
  -- E gostam? -- continua Ana.
  Ele d de ombros sem responder.
  -- Eu gosto -- responde no lugar dele, bem exibida, uma menininha.
  -- Tem que gostar? -- pergunta o garoto do Sol. -- Nunca ningum me perguntou se eu gostava ou no.
  -- Minha me tambm gosta -- vem de novo, petulante. a menininha. -- Adora! Diz que  a cidade dela.
  -- Meio cada, n? -- arrisca Ana. E acrescenta rpida:
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 -- Sem querer ofender.
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  -- Voc precisava ver antes -- intervm um menino mais velho em tom orgulhoso. -- Nenhuma cidade era mais bonita que esta.
  -- Voc viu? -- pergunta Ana, seduzida.
  Todos riem, um finge que vai despencar do alto da escada, de tanto rir, a menina tapa as gargalhadas com a mo. Um dos homens, l embaixo, vira a cabea para ver o que est acontecendo, depois volta ao seu cachimbo.
  Ana pe-se na defensiva. Mas aos poucos as risadas param.
  -- Isso foi h um tempo -- diz o menino mais velho, com ar condescendente.
  Garoto do Sol -- Tempo, tempo.
  Menina saliente -- Acho que nem minha me viu.
  -- E como  que vocs sabem? -- pergunta Ana. 
  Garoto do Sol -- Todo mundo sabe.
  As figurinhas esto quase esquecidas. O novo assunto tornou-se mais importante, e as crianas sentem, pelo interesse de Ana, que podem explor-lo, valorizando-se.
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  Menino mais velho -- Foi antes da Grande Batalha.
  Todas as crianas viram-se para ele. Os olhos brilham, o menino faz uma pausa, olha em volta. Depois continua, falando sem pressa: -- Os homens vieram de detrs das dunas do Norte. Montavam cavalos negros. E eram tantos, que no paravam de chegar.
  Menino da Lua -- Atacaram de noite.
  Menino mais velho, dando-lhe uma cotovelada -- De noite nada. Foi de dia -- hesita, e logo conserta. -- Mas tinha tanta lana e flecha voando que parecia noite. Chegou a ficar escuro.
  Garoto do Sol, entusiasmando-se -- No dava nem para ver as pessoas.
  Menino mais velho -- Muito menos os cavalos, que j eram negros mesmo.
  Menina -- Os olhos deles brilhavam, feito gato. 
  Menino da Lua -- E a boca tinha aquele bafo...
  Menina -- A...
  Menino mais velho, arrematando com tom de dono da histria -- A os cavaleiros do Norte destruram tudo. 
  Outro menino -- Tudinho.
  Menino da Lua -- Eram poderosos.
  Menino mais velho, enftico -- E tinham os cavalos.
  Ana est fascinada. Tanto, que nem faz perguntas. Agora todos olham para ela, avaliando sua reao. A roda das crianas se apertou ao seu redor. O menino mais velho calou-se por um instante e j vai recomear a contar. Porm, justo naquele momento, quando a histria estava ficando mais interessante, duas mulheres saem de dentro da tenda da runa ao lado, e batem palmas, chamando as crianas para comer. No h histria que resista  hora do almoo. Todas descem, de roldo, levando Ana. E diante das travessas de ensopado fumegante a nica pergunta que passa pela cabea de Ana : "Ser que tem sobremesa?"
  Depois de comer, as crianas recomeam a brincar, cabritinhos soltos entre tendas e destroos. "Se tem escola aqui, deve ser tempo de frias", pensa Ana. E enquanto descansa entre uma brincadeira e outra, aproveita para perguntar, sem muita esperana, se em algum momento, algum dia, viram por ali algum peixe.
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  -- Peixe? -- responde o mais velho como se fosse a coisa mais natural do mundo. Pega Ana por uma mo, e seguido pelos outros vai rebocando-a atravs daquilo que deve ter sido uma sala, atravessa com ela um corredor, chega a um antigo ptio. E calmamente se abaixa, comeando a cavar na areia. No parece encontrar nada, cava mais adiante, logo imitado pelas outras crianas.
  Ana j acha que esto debochando dela, quando um menino grita chamando os outros, todos correm e, entre os dedos e a areia revirada, Ana v estremecer, para seu absoluto espanto, um plido peixe.
  Debate-se, o pobre, querendo fugir. Seus olhos no foram feitos para a luz. Seu corpo no foi feito para o sol. De ccoras, Ana tenta examinar aquela coisa viva que corcoveia, lutando para escapar  ameaa, como se lutasse por ar. E que no emite som. Uma pele da exata cor da areia, parecendo ter escamas, mas que escamas no tem. Um feitio parecendo de peixe, mas que de peixe no . Minsculas patas no lugar das barbatanas. Uma tosca ponta no lugar do rabo espalmado. Pode ser um primo de peixe. Ou um parente de lagartixa. Ou um cruzamento dos dois. Que no quenta ao sol. Mas se esgueira debaixo da areia, no escuro, como se nadasse. Um peixe do deserto. Talvez descendente de peixes de verdade, que foram ficando quando as antigas, antiqussimas guas secaram.
  No  o peixe que Ana procura, no  o que pode lhe devolver a conta perdida.
  "Ainda no foi desta vez", pensa ela, olhando o estranho animal que some afinal na areia. E, dando de ombros para sacudir a decepo, comea novamente a brincar com as crianas.
<p>  
  Como brinca! Brinca de pique nas runas, de pular carnia nas runas, de mapa do tesouro nas runas, de pegar, de escalar, de esconder nas runas. E brinca dentro das tendas. Brinca sobre tapetes e sobre restos de azulejos. Brinca atrs de cortinas e atrs de paredes. Brinca com tudo com que se pode brincar. Aprende brincadeiras que no sabia. E ensina algumas das tantas que sempre soube.
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  Ana tem a impresso de estar brincando mais do que jamais brincou, a sensao de estar s brincando, como se algum tivesse esquecido aberta a torneira da brincadeira. E corre, senta, ri, conversa, pula. Quase nem se lembra do homem azul ou da caravana. E no est certamente pensando nele quando, em meio a uma brincadeira de pegar,  a sua sombra escura que lhe atravessa o caminho, e so seus braos que a pegam.
<p>
  -- Vamos, Ana, est na hora de viajar.
  -- J?
  -- J. Faz muito tempo que chegamos.
  -- Que nada. Ainda nem  de noite!
  -- No  noite, porque o tempo aqui  outro. Mas j passaram muitos dias.
  -- Dias?! Voc est brincando!
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  -- Eu no. Quem estava brincando  voc -- faz uma pausa. -- Estou falando srio. Viu as ampulhetas, nas tendas? -- pergunta o homem, enquanto andam.
  Ampulheta, essa palavra ela j ouviu. No tem certeza do que seja, mas sabe que conhece. Na tenda de um dos meninos tinha uma coisa com o maior jeito de ampulheta. Ana no pode garantir, mas tambm no quer passar por burra, ento se arrisca.
  -- Uma coisa... assim de vidro... -- faz uma pausa olhando para a cara dele para ver se est errando. E como o desmentido no vem, continua: -- feito duas bolhas empilhadas -- espera mais, sem querer se comprometer. -- E um fiozinho de areia.
  --  isso a. Uma ampulheta.
  -- Eu sei o que  uma ampulheta! -- interrompe Ana quase ofendida, fingindo uma segurana que no tinha.
  --  feito um relgio. Quando a areia de cima acaba, a gente vira ela -- continua o homem, sem ligar para a interrupo.
  -- Vira nada! Eu vi a mulher jogando areia nela quando ia acabando. Jogou por cima, com uma colher de prata, igual se joga p de caf no coador.
  O homem sorri. Levanta Ana para deposit-la no camelo. A caravana, j pronta, s esperava por eles,
  --  por isso, Ana, que aqui o tempo quase no passa -- diz o homem azul. -- A areia sai por baixo, confunde-se com o deserto. E eles vo botando mais por cima -- o homem sobe na sela. -- Enquanto ningum vira a ampulheta, a noite no chega.
  Ana ajeita-se no alto do camelo. Meio que suspira, meio que relaxa, amansando o corpo depois de tanta brincadeira. Como o marinheiro que retorna ao navio, sente ao mesmo tempo uma tristeza fina pelo que deixa para trs, e a paz de reencontrar aquilo que to bem conhece.
  Assim que a caravana retoma a invisvel estrada do deserto, o tempo volta ao seu passo normal. "Uma noite estrelada, que coisa bonita", pensa Ana, olhando para o alto.
  Mas olhar estrelas no  ocupao para a noite toda. No para ela.
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  -- Pena que esta cidade no tinha nenhum riachinho -- diz Ana dali a pouco para a pequena parede azul que so as costas do companheiro  sua frente. -- A gente podia ter testado o barco.
  Silncio.
  S depois de alguns minutos, a resposta: -- Esse barco no precisa de teste.
  Ana espera um pouco antes de voltar ao ataque. -- Ser que tinha gua antigamente? -- insiste.
  Silncio.
  -- Era bonita mesmo?
  Silncio.
  -- Era?
  Afinal ele responde: -- Dizem que era, antes do Grande Terremoto.
  -- Terremoto??!!
  --  raro. Mas acontece -- o homem, que no assistiu  conversa das crianas, no pode entender a verdadeira razo da surpresa de Ana. E ela acha mais conveniente esconder que a fizeram de boba. Demora para perguntar:
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  -- Por que no reconstruram ela igualzinha?
  -- Porque na hora no tinham com qu. E passado algum tempo se esqueceram de como ela havia sido.
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  -- Ento, por que no fizeram de outro jeito?
  -- Porque era to linda antes, que nenhum outro jeito servia.
  Silncio. Agora  Ana que se cala, pensativa. At perguntar: -- E eles no vo querer ir embora?
  -- No -- o homem fala baixinho, mais para si que para Ana. -- Ficam ali, nas tendas, como se fossem partir a qualquer hora. Mas no vo uma pausa. -- No h nenhum lugar no mundo seu como aquele.
  Ana pensa nas mulheres, com suas colheres de prata. E um frio lhe beija o cangote. Talvez seja a madrugada, que vem vindo.

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O que os olhos no vem
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   nisso que ela est pensando, molemente sacudida pela marcha sob o sol, quando algumas tardes depois um sbito estremecer percorre a caravana, os homens se ajeitam sobre as selas, alguns apontam, todos falam ao mesmo tempo.
  Ana olha na direo para a qual se voltam as cabeas e, ao longe, numa espcie de remanso, vale entre as grandes ondas de areia, distingue pessoas, mulheres, homens, crianas, que andam e que conversam. E,  medida que a caravana se aproxima, v, para seu completo espanto, uma jovem que caminha no ar e homens suspensos alguns metros acima do cho, braos estendidos para o alto, gesticulando.
  Uma ordem  lanada pelo primeiro cameleiro naquela lngua rascante que Ana continua no entendendo. Ricocheteia de garganta em garganta, at percorrer toda a caravana, que estride, sacode-se em breve trote, descompondo sua linha ordenada, e pra. Entre chamados e blaterar de camelos, os caravaneiros apeiam.
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  Ana j se acostumou  sensao de estar com os ps afundados na areia e com a cabea ainda navegante. Toda noite, depois que desce do camelo, continua ondulando por dentro, mesmo debaixo da tenda vermelha. Mas agora, depois dos primeiros passos, sentindo-se banhada de frescor embora debaixo do sol escaldante, e invadida pelo perfume de jasmins que no existem, Ana tem a impresso de que, junto com o corpo, ondeia seu pensamento.
  Vm as mulheres receber os caravaneiros. Entornam cntaros vazios sobre suas mos estendidas, oferecem cestos vazios que aqueles vasculham com olhar guloso. Algumas estendem tapetes, ali mesmo, debaixo daquele sol misteriosamente fresco, para que eles deitem.
  Alguma coisa estranha est acontecendo. Ana sabe disso. Mas que coisa  essa? Gostaria de tambm estender as mos, vasculhar nos cestos, participar. Porm no ousa entrar num jogo cujas regras desconhece. Ento, cola-se nos calcanhares do seu cameleiro, que est colado nos calcanhares de um rapaz. E assim em fila vo seguindo os trs.
  Por que este farfalhar, se no h nenhuma rvore? Por que esse macio espetar debaixo dos ps, se  tudo areia? Por que essa mulher que vem descendo do alto do nada como quem desce escada, se no h escada alguma? Ana no quer fazer-se essas perguntas perturbadoras, para as quais no tem respostas, mas no pode evit-las.
  A mulher que havia descido do nada dirige-se sorridente para o cameleiro. Este abaixa a cabea, levanta o p, e inclina o corpo como se entrasse em algum lugar. Ana d mais um passo querendo segui-lo. E, pam!!! o p estremece na topada. Topada em qu. se no h nada diante dela? Cambaleia, saltando sobre o p intocado. E. pam!!! as costas se encurvam na pancada. Pancada onde, se nada v daquele lado? Vira-se procurando, e desta vez, pam!!!  o cotovelo que esbarra numa superfcie dura, inexistente como tudo.
  Sem coragem de se mexer, sem coragem de ficar parada. Ana se deixa cair sentada no cho.
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  S ento o cameleiro parece perceber sua aflio. E, como naquele primeiro dia, estende-lhe a mo.
  Dois olhos escuros, uma mo estendida, que mais pode querer Ana? 
  -- Quero saber o que est acontecendo! -- suplica Ana, encarando aqueles olhos.
  Mas o homem azul no responde, e, apesar de irritada, ela acha mais prudente segurar sua mo. Que a puxa devagar, fazendo-a levantar e guiando-a atrs de si. Pisando bem onde ele pisa, Ana avana mais alguns passos.  ainda mais fresco, aqui. E silencioso. O homem pra. Ana quase tropea na ponta do seu manto. Ele senta-se no cho diante de uma toalha estendida, cruzando as pernas. Ana o imita. E a mulher que havia descido a escada chega agora, precedida por cheiro de comida, trazendo suas grandes terrinas nas mos. Vazias, porm, como Ana verifica com grande desapontamento quando as terrinas so colocadas  sua frente. Assim como esto vazios os copos que ela traz andando devagar, quase temesse entorn-los. E como est vazio o pano amarrado pelas quatro pontas, que a mulher desfaz cuidadosa, e que Ana havia esperado contivesse alguma fruta.
   demais para Ana, cansada e faminta. J se dispe a chorar, quando  surpreendida pelo gesto do seu companheiro, que tira do rosto o vu azul, estende a mo para a terrina e a traz de volta  boca, comeando a mastigar.
  -- Que  isso que voc est fazendo?
  Desta vez a voz dela contm tanta ansiedade, que o homem pra de mastigar, e responde.
  -- Comendo. Voc no est com fome?
<p>
  -- Fome de qu?! -- grita chorosa.
  O homem azul pega a mo de Ana e a leva at o pano aberto sobre o cho. Mas o que a mo encontra no  a aspereza do tecido. Debaixo da palma de Ana h uma superfcie redonda, pouco maior que a mo, do tamanho que teria, talvez, uma laranja. De laranja  a lisura quase oleosa daquela superfcie. De laranja  a textura em que a unha de Ana, testando. Afunda de leve. De laranja  o perfume que, ferida a casca, se solta no ar.
  Ana aproxima do rosto a laranja que no v, o perfume se faz mais intenso. Uma leve ardncia queima os lbios que ela passa sobre a casca arranhada. Ana estende a mo esquerda para o pano, tateia outra forma redonda, mais outra, junto desta. Havia trs laranjas no pano aberto. Sem que nenhuma se visse. Que mais haver ao redor, que Ana no v?
<p>
  -- Tamareiras, figueiras, casas, pssaros e lagartos. Como em qualquer osis -- diz o homem azul. -- Esta  uma antimiragem.
  -- Para ns, melhor que aquilo que se v e no existe -- explica a mulher --  aquilo que existe e que, s vezes, no se v.
  -- Como "s vezes"?! -- Ana est indignada. -- Eu no vejo nunca.
  -- Voc s olha com os olhos! -- agora quem est indignada  a mulher, como se Ana estivesse desfazendo do seu mundo.
  -- Seu nariz, sua mo, sua lngua esto vendo a laranja melhor que voc -- diz o homem azul.
<66>
  Ana fecha os olhos. Acaricia o rosto com a laranja, passa-a de uma mo  outra. Pega mais uma no pano. Brinca um pouco com as duas. De olhos fechados, nem d para perceber que as coisas so invisveis.
  -- Mas eu s sei andar de olhos abertos -- protesta Ana, levantando as plpebras.
  Ri o homem azul. A mulher ri.
  -- Ns tambm -- diz ele.
  Ana se levanta. D alguns passos, hesitante, braos estendidos  frente, corpo meio jogado para trs, protegendo-se de um possvel esbarro. De olhos abertos, anda como se fosse cega. At dar com os dedos na parede. Ento volta, torna a sentar-se. Agora sabe que est dentro de uma casa.
  E num estalo se d conta de que veio at ali pisando em grama, debaixo das rvores, entre jasmineiros em flor. Parte por parte, comea a "ver" aquilo que no enxerga.
  -- E o que  que estavam fazendo aqueles homens em p? -- pergunta de sopeto. Isso ainda no consegue "ver".
  -- Que homens?
  -- Aqueles parados no alto, no ar, onde a gente chegou.
  -- Ah! aqueles! Estavam colhendo laranjas... os ps esto carregados.
<p>  
  -- Estas laranjas -- Ana joga para o alto a laranja invisvel que apanhou  sua frente. Consegue apanh-la no ar, sorri satisfeita. -- Eles estavam no alto de escadas.  isso?
  -- Claro. Que foi que voc pensou, que estavam voando?
  A idia agora parece to absurda, que os trs riem.
  Assim, comeando pelos mveis da casa, que tateia, pela procura da porta que s acerta na quarta tentativa, e pelo arranho do gato em cujo rabo pisa, Ana vai aprendendo um novo jeito de ver.
  Tudo bem com os cheiros. O nariz enxerga longe. J com as cores  mais difcil. Como principiante que , Ana vai pela memria e pela imaginao. Se ouve um farfalhar, pensa verde. Se bebe gosto de leite, pensa branco. Mas os outros, os habitantes deste osis, h muito acostumados, garantem que sentem as cores pelo tato, como uma vibrao, ou um calor.  
<67>
  "Um dia", pensa Ana, "chego l".
  Mas, sem que Ana possa prever, o dia que vai chegar  outro.
  Antes porm, quando esse outro dia aonde ns tambm vamos chegar ainda est a caminho, Ana, que no perdeu as esperanas, pede a uma das crianas que a leve at a fonte do osis.
  No tem cheiro, a gua. Nem farfalha ou cascateia, quando est parada. Mas, mesmo parada, pode-se ouvi-la estremecer de leve se roada pela asa de uma liblula ou invadida por uma folha que cai. Foi por isso que, debruada sobre seus sons e seu pequenssimo mover-se, Ana conseguiu ver um olho-d'gua bem maior que qualquer olho. E muito mais transparente que qualquer fonte, porque nada  mais transparente do que aquilo que no se v.
  "Se meus peixes estivessem aqui, esses sim, eu veria", pensa ela, que a esta altura j considera seus os peixes que nunca encontrou. E ri. pensando ainda que, se eles estivessem nessa gua. pareceriam verdadeiros peixes voadores, agitando os rabos e movendo as barbatanas em pleno ar.
  Porm, se aqui tinham estado, daqui tinham se ido, sem deixar rastro ou lembrana. E desta maneira, sem os peixes e perguntando-se quando a caravana partiria, Ana acabou dando de frente com aquele tal dia que vinha vindo.
  Um dia igualzinho aos outros, que comea pela manh como cabe aos dias. E em que ela vagabundeia pelo osis tentando levar adiante seu aprendizado, mas dizendo a si mesma que apesar de tudo a sombra  bem mais fresca quando a vemos desenhar-se sobre o cho, e as frutas so mais saborosas quando as vemos nas rvores ou no prato e, antes mesmo da boca, o corpo todo se dispe a com-las. Um dia que, to sem novidades at ento, muda ao entardecer, quando uma bola de poeira surge no horizonte, cresce aproximando-se. E chega com um ronco, no osis subitamente em corre-corre.
  "Os caadores de escravos!", pensa Ana, catastrfica como sempre, procurando um lugar para se esconder, e percebendo, num instante de pavor, que  impossvel esconder-se no invisvel.

<68>
 Um salto rumo s estrelas

  A nuvem freia. H um burburinho de falas e gritos. E Ana percebe que no era da nuvem que as pessoas estavam correndo. Era ao encontro dela. Ao encontro desse novelo de areia que aos poucos se desfaz, entregando aos sorrisos de homens, mulheres e crianas trs jipes, um nibus e uma moto.
  -- Os caadores de talentos! -- exclama uma mocinha em xtase ao lado de Ana.
  -- Deixa de ser besta -- atalha a outra, dando-lhe um esbarrozinho. -- S querem figurantes.
<p>
  Saltam os ocupantes dos jipes, mais duas moas que vinham no nibus, e o motoqueiro que se livra do capacete. Todos falam ao mesmo tempo, batem com as mos na roupa para tirar a areia, agitam papeletas. E vo andando entre as pessoas, pegam uma e outra pelo brao, viram para cima o rosto de uma menina para olh-lo melhor, afastam as crianas que pulam ao seu redor como cachorrinhos, examinam as roupas. E destampam garrafas e abrem latas e bebem bebem como se naqueles jipes houvesse mais gua que em todo o deserto.
  Ana no sabe o que pensar. Colhe um pedao de conversa, depois outro, pergunta  vizinha, parece que essa gente j veio aqui outra vez, esto fazendo um filme, muita gente do osis j foi nas filmagens.
  Ana est justamente se perguntando se  melhor ser escolhida ou no e respondendo a si mesma que sim,  claro, melhor  estar entre os eleitos, quando um dos homens vem na sua direo. Mas, apesar do entusiasmo que Ana se esfora para tornar evidente, ele passa sem sequer olh-la. E tampouco a olham a moa de cabelo amarrado com um leno ou o motoqueiro que esto com o homem.
  "Ser que no vo me escolher?", pergunta-se Ana, pouco acostumada a ser ignorada.
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  O pessoal do cinema -- afinal, que filme  esse? -- separa dois grupos, homens, mulheres, um grupo menor de crianas. As pessoas comeam a entrar no nibus.
  E vendo que no vai mesmo ser escolhida, Ana decide escolher. Junta-se sorrateira ao grupo das crianas, abaixa a cabea, encolhe-se toda. Confundida com aqueles meninos e meninas barulhentos, Ana entra no nibus, afunda-se num assento. E em pouco tempo, entre ronco e p, l vai ela, rumo ao estrelato.
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 A ao imprevista

  O nibus pra. Ana salta com os outros.
  Agora Ana j est entrando num enorme galpo. Nesse lugar onde ela chegou no tem s o galpo. D para perceber outras construes. Mais baixas, me parece, casas, ou escritrios, e uma torre daquelas que no alto tem caixas-d'gua. No tenho certeza dessas coisas, nem dos canteiros um tanto ridos diante das construes, ou do coqueiral ao fundo, porque no  isso que nos interessa. O que nos interessa  que Ana, junto com os outros, entra no galpo. E que este galpo, disso sim tenho certeza,  um estdio de cinema.
  Galpo meio cinzento por fora, meio maltratado. Mas por dentro, como Ana descobre ao cruzar a porta, um mercado persa claro e barulhento.
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  Ana no consegue parar de sorrir de admirao. Um alto muro branco. Palmeiras to verdes e brilhantes que provavelmente no so palmeiras de verdade. Uma praa com uma fonte no meio, gua jorrando do repuxo. Em volta da praa, arcadas, e debaixo das arcadas lojas e mais lojas. Tem a loja do vendedor de tapetes, a do vendedor de animais, uma espcie de farmcia cheia de potinhos coloridos, uma outra que vende objetos de cobre, lojas de vidros, de frutas, de jias, lojas de tecidos, lojas de roupas bordadas.
<70>
   to lindo que Ana compraria em cada uma, se apenas tivesse dinheiro, ou se as coisas estivessem mesmo  venda. Mas as pessoas, as pessoas todas que enchem a praa como uma multido, no parecem interessadas. Fumam, conversam, comem biscoitos. Sentadas no cho, encostadas s paredes, no tm os gestos que delas se esperaria. O dono da loja de animais sequer olha para o enorme gato cinzento, de longo plo que, trancado numa gaiola, mia de fome ou sede ou desejo de sair. Nem se abala o beduno quando, num estranho gemido gutural, o camelo que ele conduz por uma corda ameaa vomitar na cabea de Ana. Os fazedores de comida no fazem comida, os malabaristas no malabarizam, os vendedores no vendem, ningum anda.
  At que uma ordem cala todas as conversas.
  -- Luzes!! -- grita algum atravs de um megafone.
  Uma claridade intensa e branca, de muitos sis, uma claridade quase de relmpago, calcina a praa. Imediatamente, as sombras assumem seus lugares debaixo dos toldos, debaixo dos olhos das pessoas, nas pregas das roupas, nas quinas e cantos, marcando a dura fronteira com a luz.
  Ana est ainda assimilando a surpresa, quando outra ordem vem juntar-se  primeira.
  -- Cigarras!!!
  E dezenas de cigarras invisveis despejam sua cantoria do alto das palmeiras, dos beirais dos telhados. Em meio ao cantar, chega a terceira ordem.
  -- Ao!!!
  E agora sim, apagados os cigarros, engolidos os biscoitos, todos se movem, todos fazem os gestos esperados. Os malabaristas jogam para o alto seus aros coloridos, os vendedores de tapetes desenrolam sua mercadoria, o beduno atravessa a praa com o camelo quase pisando no rapaz que vem com quatro ces brancos na coleira, a moa compra figos, o homem cospe fogo, o moo amola facas, a velha mede fitas, o velho vende velas, o farmacutico pesa um p preto com pesos de prata, e at o vendedor de animais volta-se para o gato, alisando-lhe a cabea por entre as barras da gaiola.
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  Ana hesita: deve aceitar as roscas luzidias de mel que o gordo e luzidio doceiro lhe oferece? Mas, sem perceber, ela andou acompanhando o doceiro, e ao levantar o rosto se v, de repente, numa espcie de largo, apinhado de gente. Ali ningum anda. Todos olham fascinados. Em cima de um grande estrado, um rapaz de torso nu est ajoelhado, as mos amarradas para trs, a cabea cada para a frente. E atrs dele um homem enorme, de cabea raspada de onde jorra um longo rabo de cavalo, levanta com as duas mos a cimitarra.
   impresso de Ana, ou a luz parece mais esverdeada?
<72>
  Um grito comanda: Corta!
  Ana fecha os olhos. Tem nojo de sangue, no quer ver a cabea rolar.
  Mas as cigarras se calam, h um burburinho, um agitar-se e, devagar, ela abre uma fresta nas plpebras para dar uma espiadinha.
  Para sua surpresa, a cabea do rapaz no rolou. Muito pelo contrrio. Bem plantada no pescoo, est virada para o carrasco, e os dois conversam amigavelmente, enquanto a cimitarra, com a ponta cravada no cho, serve de apoio para o cotovelo do dono.
  -- Ao! -- comanda-se novamente no estdio. E as cigarras cantam. A luz calcina. A multido olha. A cabea se dobra. A cimitarra sobe. Ana se encolhe.
  Mas antes que ela tenha tempo de sequer tornar a fechar os olhos, um barulho de cascos se sobrepe ao cantar das cigarras, e um tropel de cavaleiros irrompe na praa.
  Gritam os cavaleiros agitando rifles e cimitarras. Gritam as pessoas correndo desabaladas. Um toldo vem abaixo, frutas rolam pelo cho. Um golpe decepa o gargalo de um odre, o vinho jorra ensangentando o lajedo. Ana no sabe se foge ou se se esconde, e uma pergunta martela sua cabea junto com o susto: "Isso faz parte do filme?".
<p>
  Sem que Ana perceba, um cavaleiro vem a galope por trs dela, Debrua-se da sela, passa-lhe o brao pela cintura. O gesto  rpido. Quando Ana sente o brao do homem, seus ps j no esto mais tocando o cho. Ana foi raptada.

 Era uma vez o oeste

  "Ser sangue de verdade, ou de mentira, este que mancha a roupa do homem", pergunta-se Ana enquanto o tropel galopa por entre rochedos e raros arbustos. O cheiro do homem, spero como o das cabras, s pode ser de verdade. Como de verdade  a fala, igualmente spera, com que os cavaleiros se comunicam em breves frases. Do mais, Ana nada sabe.
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  Uma lua no cu, fina. Um vento no rosto de Ana, frio. E o bater dos cascos ferrados.
  A lua empalidece. O vento amaina. Mas os cascos continuam batendo.
  E o dia inaugura sua primeira luz, quando os cavaleiros com seu refm chegam a uma cidadezinha.
  Nem bem cidade. Uma rua larga de terra, pequenos prdios de madeira dos dois lados. Talvez duas ou trs ruazinhas laterais. E uma igreja em alguma parte.
   na rua de terra que o tropel pra, diante de um prdio que tem escrito no alto *Saloon*. Os homens apeiam, amarram os cavalos. Trs mulheres, de chapu preso com laarote debaixo do queixo, olham enviesadas do outro lado da rua. Um velho, sentado numa cadeira de balano diante da barbearia, corta com canivete um toquinho de pau, e levanta apenas a cabea. O cocheiro da diligncia parada mais adiante nem se move. Os homens riem alto. Entram no *saloon* batendo com fora nas portinhas de vaivm. Chega de l dentro a msica de um piano, o barulho de muitas vozes.
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  Ningum parece lembrar-se de Ana.
  "Por que me trouxeram ento?", pergunta-se ela, logo pensando que talvez seu papel no passasse disso, refm enquanto necessria, e depois mais nada.
  Bem contente com o esquecimento, vai se afastando devagar, ar falsamente distrado, sem querer chamar a ateno.
  Passa pelos cavalos. Passa por uma tabacaria, com um grande ndio de madeira diante da porta. V o ferreiro mergulhar dentro de uma tina a ferradura em brasa. E v adiante uma espcie de loja, toda azulejada, uma peixaria talvez.
  Uma peixaria?! O desejo de Ana parece correr para l, muito antes de suas pernas. Mas Ana atravessa a rua lentamente, no fosse, logo agora, despertar as suspeitas de algum.
  A frente aberta, uma espcie de *hall*. Um guich. No  uma peixaria. Isso Ana percebe logo ao entrar, at mesmo pelo cheiro. Demora, porm, mais alguns segundos para dar-se conta do que . Uma estao de metr.
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  " a minha chance de voltar para casa!", pensa Ana, quase surpresa de ter pensado nisso.
  Mas com o pensamento, o desejo de voltar, de dormir na prpria cama, de largar os sapatos no cho do prprio quarto, o desejo de aninhar-se no seu mundo lhe sobe de dentro, do estmago, das tripas, dos pulmes, de um lugar qualquer do corpo onde tinha estado escondido at ento e de onde agora, nesse exato momento, transborda garganta acima, invadindo a cabea, e expulsando todos os outros desejos.
  Aproxima-se do guich j metendo a mo no bolso. E ao mesmo tempo em que se lembra de no ter trazido dinheiro algum, percebe que atrs do vidro no h ningum, e colado no vidro h um bilhete, "Sa para o cafezinho", e uma faixa, "HOJE, PROMOO TOTAL". Os bilhetes esto ali, ao alcance. Ana pega um. Estranho: o bilhete no  durinho como os de metr.  de papel azul, mole, igual a uma entrada de cinema. O sinal toca na estao, no h tempo para hesitaes. Ana sai correndo, passa pela roleta, voa escada abaixo. Na plataforma, o trem vem chegando. Ela pula no vago na hora exata em que a porta vai fechar. A porta fecha-se. Ana solta o ar todo que se atropela no peito. O trem deixa a estao e enfia-se no escuro.

De volta ao comeo

  O vago sacode. Que sono! Apesar de ter passado a noite em claro na longa cavalgada, Ana recusa-se a dormir. Sabe l para onde vai este metr? Sabe l para onde pode lev-la se fechar os olhos? E como saber, dormindo, em que estao saltar?
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  No h mais ningum no vago. S ela. Sacode, sacode. O vago  mal iluminado. L fora a escurido  total. Olhando pela janela s consegue ver seu rosto refletido no vidro. "Vai demorar", pensa Ana, "estive em tantos lugares...".
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  Mas, contrariando sua expectativa, depois de algum ferralhar, o metr pra de um tranco numa estao vazia. Ningum na plataforma. Ningum saltando dos outros vages. *Estalo da Tumba*, est escrito em mosaico na parede de azulejos. E adiante, num enorme cartaz, uma mulher igualzinha  rainha de branco bebe um refrigerante, o belo perfil debruado sobre o canudinho, Ana salta. D dois passos  frente e pra olhando ao redor, enquanto os vages fecham as portas, o apito toca, e o trem parte novamente.
  Ana segue a seta de sada. Vai indo pelos corredores, atravessa uma roleta. E depois de andar mais um pouco, l est ela na rampa. A mesma rampa que ela j subiu, que d para os degraus que do para a passagem que d para a sala toda pintada, a sala da rainha.
  "At que enfim um lugar familiar", suspira Ana, aliviada, como se visse o porto de casa.
  A luz continua acesa. E ela entra j sorridente, pronta para abraar os amigos e contar suas aventuras.
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  Mas o Baixinho e o Alto no esto, sumiu o banquinho, foram-se os patinhos. Em seu lugar, um grupo de turistas barulhentos perambula entre as colunas. Uma loura sardenta, certamente a guia, agita ao alto um guarda-chuva aberto, tentando chamar a ateno do seu rebanho. O rebanho nem liga. Alguns lem um livrinho azul. Uma mulher examina o salto do sapato que quebrou. Vrios tiram retratos num espoucar de *flashes*. Todos parecem falar ao mesmo tempo.
  "Como so barulhentos!", pensa Ana, lembrando do seu amigo Alto. E vendo um casal rabiscar furtivamente seus nomes na parede, acrescenta pensando no Baixinho: "E to metidos!".
  "Onde andaro os dois, em sua busca de sossego?", indaga-se Ana. "Pelo menos, eles podem procurar", e olha para a pobre Rainha presa  parede, obrigada a ficar naquela algazarra, ela que durante tantos sculos havia habitado o silncio.
  O sarcfago continua no mesmo lugar. Faz tanto tempo j que Ana esteve aqui, mas olhando a bela pedra imponente torna a sentir aquele friozinho percorrer-lhe as costas, lembra do medo que teve da escurido, lembra do vulto. E de repente, com um tranco de culpa, lembra do... CAPACETE!!!
  O capacete do mineiro! S agora ela se lembrou. Tinha prometido devolver. E acabou esquecendo-o na primeira oportunidade. Deve ter ficado cado por ali mesmo, perto do sarcfago. Ana d uma olhada em volta, entre os ps calados de tnis, os ps calados de sandlias e de botinas, os ps que se movem sem ligar para o lugar onde pisam. E percebe que  intil procurar. Vai ter que desculpar-se com o mineiro. O solzinho de mentira certamente est longe. Consolo  imaginar que talvez esteja iluminando a testa do Alto ou as sobrancelhas do Baixinho.
  Sem ter de quem se despedir, Ana afasta-se dos visitantes. Atravessa outra sala. Ser impresso sua, ou o homem de branco parece menos sereno? Mas ela no tem mais disposio para examinar as paredes nem demorar-se em consideraes. Procura, junto ao cho, a abertura por onde entrou a primeira vez. E afinal tem a impresso de v-la num canto mais escuro.
  Impossvel, porm, que fosse to pequena. No, certamente no era essa. Ana lembra-se de ter passado com facilidade, e a abertura que agora est  sua frente parece suficiente apenas para um gato gordo ou um cachorro magro, nunca para uma menina grande como ela.
<79>
  Inutilmente procura ao redor, e mesmo em outra sala. No h outra abertura. S pode ser aquela mesma. Examinando o cho, Ana encontra marcas das suas prprias mos, rastros dos joelhos. Foi por aqui sim, o jeito vai ser espremer-se, insinuar-se. O jeito vai ser lutar para sair.
  A cabea passa primeiro, que  o mais fcil. Mas os ombros entalam, so largos demais. Ana se espreme, se deita, tenta de toda maneira, enfia um brao pela abertura, para puxar-se com a mo j do lado de l. "Tenho que conseguir", pensa com fervor. "Se eu no passar, nunca conseguirei voltar para casa." Recolhe o brao, encolhe os dois bem encolhidinhos, se gira, faz fora. O boto salta da gola, o suor molha a nuca. Porm, aos poucos, como se a parede tivesse pena dela e cedesse passagem, Ana vai avanando rumo ao outro lado. At que, livres os ombros e os braos, pode parar um instante para descansar, respirar com fora e, numa ltima arrancada, passar o resto do corpo para dentro da mina.

<R+>
 O fundo recomeo
<R->

  Escuro breu e cheiro de umidade. Ana sabe que basta esperar, para que os olhos se acostumem. Aqui ela conhece o caminho. Alguns minutos, e comea a distinguir os contornos. H uma curva adiante, anunciada em leve claridade. Tac, tac, ouve-se bater ao longe.
  "Meu mineiro continua trabalhando", pensa Ana com carinho. Apressa-se na direo das batidas, se  que  possvel apressar-se naquele emaranhado de traves e estacas. Os ps se levantam evitando os tropeos, a cabea se abaixa evitando os obstculos, e o corao bate contente porque ela est no caminho da volta e s amigos a esperam adiante.
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  Entretanto, vencida a distncia e superada a curva, no  o seu amigo que se embate. Um mineiro est ali com a mesma roupa, o mesmo solzinho na testa, a mesma picareta na mo, a mesma carinha preta de carvo. Mas o sorriso no  o mesmo.
  O amigo, explica este, meio surpreso com a chegada de Ana, foi fazer um servio urgente, coisa de cliente importante, escama de sereia ou cao, no sabe ao certo.
  Ana poderia fazer mais perguntas, o rapaz est olhando para ela, disponvel, quase esperando. Porm, estranhamente, no sente o antigo tropel de interrogaes comichando no peito. O que sabe, por enquanto, lhe basta.
<p>  
  Procura nos bolsos, quer deixar uma espcie de recado, marca da sua passagem para quando o amigo voltar. Mas tudo o que tinha, menos a escama, ficou com os meninos da cidade em runas, e as figurinhas que ganhou em troca se esboroaram pelo caminho.
  Ento desfaz o lao que lhe prendia os cabelos, sacode a cabea, e entrega a fita vermelha ao rapaz.
  -- Diga que fui eu que deixei para ele, de lembrana -- vai andando, pensa melhor, volta-se. -- No. De lembrana s, no. Diga que  o pagamento da minha dvida. Acho que no terei como voltar -- vai andando novamente, e virando apenas a cabea. -- O nome  Ana -- diz bem alto. -- No se esquea.
  O cho, naquela falsa escurido que Ana agora sabe to bem, est quase seco. At a pouca umidade que havia parece menos mida. Certamente no choveu.
<p>  
  Mais um pouco. e Ana finalmente desemboca no poo. Vem toda sorrisos, pronta a cumprimentar a velha senhora e desculpar-se por no ter-se despedido da outra vez. Mas para seu desapontamento, a senhora tambm no est. "Ser que todos os meus amigos se foram?", pergunta-se Ana, pronta a entristecer.
  Entretanto, procurando com cuidado maior, cavucando com o olhar na parte mais sombria, acaba por v-la. Est deitada, parada. Certamente dorme.
  Ana aproxima-se. Bem embrulhada no cobertor de gua, a senhora ressona mansamente. Ao lado, as agulhas vermelhas esto metidas no balde vazio. Ana levanta a leve ponta do cobertor, "ela tinha razo", pensa. " gostoso mesmo." Aninhados entre os braos da velha senhora, dormem tranqilos os peixes.
<81>
  "Ento eles voltaram?", sorri Ana no escuro. "No esperaram a chuva."
  Quem sabe h quanto tempo estavam ali, enquanto ela os procurava pelo mundo.
  Mas, parada diante deles, Ana no sente desejo de acord-los. Agora que est no caminho da volta, o colar e suas contas, que a haviam levado to longe, parecem ter perdido a importncia. Como os seixos que se gastam no rio, assim o seu desejo havia-se gasto no tempo. E o pouco, o pouquinho que restava dele, coisa quase nenhuma, apenas a fazia sorrir, sem qualquer ansiedade.
  "Era um lindo colar", pensa Ana, alegre. Quase sente a rosa de marfim despetalar-se em sua lembrana. "Vai ver", pensa ainda, "nem estava mesmo procurando por ela. Vai ver, estava o tempo todo s perseguindo a viagem".
  Ana abaixa o cobertor envolvendo a velha senhora, cala a ponta com cuidado. Depois vai at a parede do poo, segura o primeiro degrau, olha para o alto. "Engraado", pensa antes de comear a subir, "como  fcil voltar pelos caminhos que a gente j conhece".
  A luz l em cima brilha redonda e pequena como uma lua.

 enFIM

  No entanto,  dia quando Ana surge na boca do poo, passa uma perna por cima da beira, passa a outra, gira o corpo. E se encontra exatamente onde estava quando eu dei de cara com ela e isso tudo comeou.
  Ana limpa na saia as mos sujas de ferrugem. Cus, que to curta est essa saia! "Vou ter que baixar a bainha", pensa. Depois mete a mo no bolso, vasculha o fundo, sente a leve aderncia da escama na ponta do dedo. Sim, ela est l, a lembrana de ouro da qual nunca vai se separar.
  Olha sua casa ao longe. Eu tambm olho. E agora sei que  num campo que Ana est. E a casa aparece entre rvores.
  No cu, nuvens escuras se acavalam.  bom andar depressa.
  Ana est justamente rodando a maaneta para entrar em casa, quando uma gota grossa cai na sua mo. Outra nos cabelos.
  -- Que bom que voc chegou antes da chuva, filha -- diz l da sala a voz que ela to bem conhece. -- Vem a um p-d'gua.
  Um relmpago chicoteia as nuvens. Elas parecem se empinar. O cu trinca-se num gemido. Do alto, liberadas, jorram enfim as cachoeiras.

<83>
<p>
 Os Smbolos Esto
  em Toda Parte

<R+>
 Entrevista concedida a *Antonio Carlos Olivieri*, especialmente para esta edio.
<R->

  Um pai guerreiro -- que mais tarde viria a se tornar ator -- e uma guerra colonialista fizeram com que Marina Colasanti nascesse em Asmara, na Etipia (Africa), em 1937. Outra guerra -- a Segunda Mundial -- acabaria trazendo-a para o Brasil, onze anos mais tarde. E aqui ela se radicou. Cursou a Escola Nacional de Belas Artes, dedicou-se durante algum tempo  gravura. At ingressar no jornalismo.
  Durante onze anos trabalhou no *Caderno B*, do *Jornal do Brasil*, como secretria de texto, ilustradora, cronista. Em seguida foi, durante dezoito anos, editora especial da revista feminina *Nova*. Paralelamente, escrevia para outras revistas, atuava em publicidade e em televiso, alm de realizar numerosas tradues. Publicou seu primeiro livro, *Eu sozinha*, em 1968, e a partir de ento escreveu mais de vinte livros, entre literatura para adultos e infanto-juvenil.
<84>
   casada com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, seu mais intenso companheiro intelectual, como atestam os trs livros que escreveram de parceria.  justamente sobre livros e smbolos, sobre sua formao e sobre *Ana Z. aonde vai voc?* que Marina Colasanti nos fala nesta entrevista.

  Como foi sua aproximao com a literatura ou como voc se tornou uma escritora de fico?
  Em jornal, comecei como reprter, mas, pelo fato de escrever bem, logo fui promovida a redatora. Mais tarde, passei a ser cronista. E, com as crnicas, eu j estava com um p na literatura.

  Isso se refere ao rumo diretamente profissional. Houve, entretanto, leituras que a influenciaram, que a levaram a querer escrever?
  Todas as leituras me influenciaram. Desde criana, li muito. O conjunto dessas leituras encheu a minha vida de aventura, de beleza, e me transmitiu para sempre a noo da fora da palavra. Emilio Salgari acho que li todo. *Pinquio*, o original de Collodi, que beleza! *Fui alimentada com contos de fada*. E, numa coleo adaptada para crianas, li os clssicos *D. Quixote, llada, Orlando Furioso*, que me marcaram muito. Na juventude, lia por "lotes" de paixo. Me apaixonei pelos autores russos, depois pelos norte-americanos. *Hoje sou uma leitora desordenada e compulsiva*.

  Sua primeira lngua foi o italiano. Mas voc comeou a escrever em portugus?
  Sim, minha lngua "literria"  o portugus.  a lngua do meu trabalho. Mas penso nas duas, indiferentemente. Conto em italiano. E tambm em italiano escrevo meu dirio.

  O que significa para voc escrever?
  Escrever  o meu cotidiano. o meu ganha-po. O cavalo da minha fantasia. Escrevendo, me sinto um peixe dentro d'gua, me sinto extremamente capaz. Eu trabalho em vrias faixas de linguagem, e gosto dessa coisa de adaptar a palavra a seu uso, de adequ-la a um texto jornalstico, ou publicit-
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rio, ou literrio. Para mim, entretanto, to importante quanto a escrita  o processo criativo em si, o momento em que a narrativa se faz, se inventa na cabea, e que antecede a escrita.

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  Voc fala nessa diviso entre inventar e escrever, mas na sua obra literria observa-se uma grande preocupao com a linguagem, como se as duas coisas fossem uma s...
  As duas coisas acabam sendo uma s, pois  atravs da escrita que a fabulao ganha corpo. Por isso meu texto  to trabalhado, para dar  imaginao um corpo to criativo quanto ela prpria. No 
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 me interessa apenas escrever uma historinha, contar um caso. Estou atrs de outras coisas, da emoo, do trnsito livre num universo que os outros chamam fantstico, das pontes que desse universo se estendem para o inconsciente.

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  Nesse sentido, como  escrever para crianas e para um pblico mais jovem?
  Sempre me fazem essa pergunta, e me perguntam inclusive se  mais fcil escrever para crianas. Para mim no . Para mim  to difcil quanto qualquer outra escrita. E os contos de fada, ah! os contos de fada so dificlimos. So a coisa mais difcil que tem. Mais exigente. Seja na forma, seja no contedo. Um conto de fada pleno  uma rara jia literria.

  Ana Z. aonde vai voc? parece estar relacionado com Alice no pas das maravilhas, de Lewis Carroll.  possvel fazer essa aproximao?
  Foi bom voc fazer essa pergunta, porque me permite responder antecipadamente a um comentrio inevitvel. As pessoas gostam de se reportar ao que j conhecem, e o fato de Ana fazer uma viagem a partir de uma descida pode bastar para remet-las a Alice. Mas h diferenas fundamentais, diferenas de conceito e de momento social. Alice cai na toca. Ana no cai, ela escolhe descer, ir ao fundo. Alice  levada pelos acontecimentos. Ana realiza uma busca voluntria, vai atrs do seu desejo. Alice acorda, tudo foi um sonho. Ana no precisa acordar, porque no sonhou. Ana renasce ao trmino da viagem, passa, como em um parto simblico, da infncia  adolescncia. Ana cresceu na viagem. *Minha inteno foi escrever uma novela de formao, cheia de fatos, quase como um videoclipe*.
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  Ana Z.  uma histria simblica, de significados mltiplos. Como voc acha que ela ser recebida pelo leitor de um mundo que  cada vez menos simblico, menos alegrico, em que se busca uma compreenso imediata?
  No acredito que o mundo esteja menos simblico. O ser humano precisa de smbolos, e os smbolos esto em toda parte. Sua compreenso tambm  imediata. Da, sua fora. Mas, quando escrevo, no estou intencionalmente armando simbologias. Estou seguindo o trnsito que a histria traa dentro de mim. Quando, no livro, digo que encontrei Ana Z.  beira do poo, isso no  simplesmente um artifcio literrio. Eu de fato a encontrei ali. E a partir dali fiz aquele percurso com ela, encontrando os lugares e os personagens que ela encontrou. Encontrei uma srie de coisas que so a minha realidade, coisas da minha infncia -- como brincar nas runas e o estdio de cinema -- e coisas do meu mundo imaginrio, to real para mim quanto o outro. Acredito que o leitor que fizer esse percurso comigo e com Ana Z. v sentir as mesmas emoes que eu senti.

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  O que voc teria a dizer, como autora, ao pblico jovem que leu Ana Z.?
  Nada que no tenha dito no livro. No sou uma didata. Sou uma alimentadora da imaginao. Uma acarinhadora da alma. Se o que eu escrevi no comoveu o leitor, no lhe sugeriu nada, se ele precisa perguntar a mim em vez de perguntar ao livro e a si mesmo, ento eu errei. No gosto de dar mensagens. Quando tenho alguma coisa a dizer, prefiro escrever um livro.
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 Obras da autora

 Eu sozinha, crnicas, 1968.
 Nada na manga, crnicas, 1973.
 Zooilgico, contos, 1975.
 A morada do ser, contos, 1978.
 Uma idia toda azul, contos de fada, 1979.
 A nova mulher, ensaio jornalstico, 1980.
 Mulher daqui para frente, ensaio jornalstico, 1981.
 Doze reis e a moa no labirinto do vento, contos de fada, 1982.
 A menina arco-ris, infantil, 1984.
 E por falar em amor, ensaio, 1984.
 O lobo e o carneiro no sonho da menina, infantil, 1986.
 Uma estrada junto ao rio, infantil, 1986.
 Contos de amor rasgados, contos, 1986.
 O verde brilha no poo, infantil, 1986.
 O menino que achou uma estrela, infantil, 1988.
 Um amigo para sempre, Infantil, 1988.
 Aqui entre ns, ensaio jornalstico, 1988.
 Ser que tem asas?, infantil, 1989.
 Oflia a ovelha, infantil, 1989.
 A mo na massa, contos de fada, 1990.
 Intimidade pblica, ensaio jornalstico, 1990.
 Agosto 91 estvamos em Moscou, relato jornalstico, 1991 (em parceria com Affonso Romano de Sant'Anna).
 Entre a espada e a rosa, infantil, 1992.
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 Fim da Obra
